25.9.06

Que tempos são esses!

Lá de onde eu venho, o único risco de se transar dentro d'água é o de ser invadido por um Candirú. Aliás, falando nisso, creio que candirús são tão traiçoeiros quanto paparazzos. Êta bicho tinhoso! É um vampiro, alimenta-se de sangue alheio. Enfiando-se em qualquer orifício. Ouvido, boca, nariz, ânus, vagina, (principalmente de moças menstruadas) e pênis (uretra, pelo cheiro da urina e amônia). Se puxado, ele abre duas guelras que rasgam a pele e provocam um estrago tão grande que pode até levar a pessoa a morte. É muito perigoso e todo amazônico sabe disso!

Mas tenho muito medo também do bicho que estamos nos tornando e do caminho que estamos trilhando, nesse trem descarrilhado chamado mundo virtual, ambiente de rede, onde ninguém se conhece mais, conectados que estamos, apenas por cabos. Quero conexões de mentes. Quero a magma nação!
Não desculpo nem minimizo a responsabilidade de cada um pela exposição em que se colocam. Mas acredito que pessoas são pessoas e por esse primordial motivo, deveriam ser, antes e acima de tudo, respeitadas e também orientadas desde cedo a se darem o respeito. Porque como seres humanos, estamos todos autorizados pela mãe natureza a certos deslizes. Temos que ter a opção de errar e acertar. Temos muitas vidas a viver nesse planeta e precisamos ter o direito à chance de rever posturas, posições, discursos e de melhorarmos.
As pessoas estão cada vez mais sendo conduzidas a essa mentalidade de impunidade no virtual, diante do que rola no mundo real, com a falência de importantes instituições, como a família, a igreja, o governo, tão corrompidas. Estamos todos conectados através de provedores de acesso que permitem o rastreamento de tudo. Isso é bom, propicia a investigação, porém, não garante punição dos sugadores do sangue alheio, assim como não é confiável a punição para os vampiros do mundo real.
Adoro as tantas possibilidades tecnológicas e a democracia da internet que nos proporcionou esse salto quântico na evolução, através do contato em tempo real com o mundo todo, dando igual espaço a qualquer mortal de se expressar, difundir obras importantes ou medíocres e principalmente salvar vidas. Mas ela criou também um monstro que é a total falta de controle sobre qualquer coisa. Não se tem mais controle sobre o direito da propriedade intelectual, da imagem, da voz, do corpo, do sexo sossegado dentro d'àgua.
Esse amor, essa veneração ao privado me incomoda. Acho privacidade fundamental, necessária. Não quero o babado, o fuxico e nada que não me acrescente. Quero que os homens consigam criar regras e leis que imponham respeito no mundo virtual. E aqui fora, resgatem os valores morais nos quais fomos educados por nossos pais e avós. Esse "todo poder" de sermos invisíveis, nos põe muitas vezes, confortavelmente na posição de algozes, de juízes, de donos-da-verdade, transformando algumas pessoas em verdadeiros monstros, pela falta de punição e regras. Rola muita maldade na rede!
Estamos caminhando no mundo virtual para o mesmo caos que estamos vivendo no mundo real. Já tive ingênuas tramelas nas portas e janelas. Ingenuas gavetas e baús e isso foi há tão pouco tempo... Agora invadem tudo, roubam tudo, copiam seus projetos, roubam seus poemas, expionam seu sexo, sugam sua alma.
Aqui fora precisamos de fechaduras, erguemos estranhos muros de concreto em torno das nossas casas, com câmeras, guardas e cães, temendo que possam invadí-la!
No mundo virtual temos firewell espalhados nas redes dos computadores e não estamos, nem de longe, livres da invasão diária.
Quero um tempo em que o mundo virtual seja um canal usado mais para o bem do que para o mal e quem sabe, ajude a salvar o mundo real.
Um tempo em que o link passado pelo meu amigo, eu possa acessar. No outro, eu possa confiar!
Quero comunidades que tenham organização e a seriedade para difundir através da rede, denúncias de crimes, educação, cultura e arte. E que promova mudanças de fato.
Quero ser tudo o que quero ser. Real e virtual. Varanda de casa e ambiente da rede. Ter amigos no portão e no portal.
Cruzarmos todos a mesma esquina, sem atropelamentos, posto que todos respeitem o sinal.
Porquê somos acima de tudo, racionais. E por traz de cada máquina, tem sempre um homem.
Ainda tenho fé na gente! Mas de Candirús... eu tenho medo!

Recomendo a leitura do texto "O que o vídeo com Daniela Cicarelli tem a nos dizer", de Gilberto A. Jr - webinsider.uol.com.br

11.8.06

A ofegante Epidemia


Eu tento sempre reconhecer, mesmo quando me sinto "cheia de razão", que posso estar errada. E fazendo hoje uma retrospecção, lembrei-me que há alguns meses eu afirmei com veemência e descrença que este ano eu votaria nulo e torceria contra. Eu estava protestando contra nossos políticos e afirmando minha pouca fé na nossa tão amada-idolatrada-salve-salve-seleção brasileira. Não estava conseguindo me inspirar com essa "ofegante epidemia, essa alegria fulgaz", de Copa do Mundo. Mas dessa vez, me desdisse duplamente.

Na política, minha melhor amiga é candidata a Deputada Federal e eu, sua assessora de comunicação. A Edna Barbosa é idealista, apaixonada pelo que faz e tem, não só uma causa justa a defender, (pois vem jogando limpo em defesa dos empregos dos trabalhadores de bingos do país), mas também merece todo o meu empenho em apoiá-la considerando a nobreza da causa, e nossa história de longa amizade, plantada lá em Ji - Paraná há 18 anos. Aff! Estamos ficando velhas, amiga!

Já a copa... Apesar de adorar ver futebol, prefiro mesmo as histórias. E foi confortador pensar no AfroReggae, no Marcello, na Mariana, todos lá em Berlin, escrevendo um pedaço de uma história da qual eu também faço parte. Foi lindo ver a Alemanha passar a limpo uma história de tantas tristezas e separações, comemorando todos juntos, depois de tudo o que viveram. Impossível não se orgulhar com a fé do comandante Felipão e com a possiblidade de gritar gol em bom português. Impossível ignorar os dribles de Zidane. Eu torci pra que essa história tivesse um final feliz e lamentei muito, pensando nos motivos que o levaram a perder a cabeça. Quer dizer, não perdeu né? Acertou o italiano em cheio (tsc, tsc).

Zidanes, Maludas, Makuleles, nomes e caras que não deixam dúvidas. São todos filhos de uma terra cheia de conflitos, uma França multi-racial, que mais se parece brasileira de tão mestiça, onde os emigrantes, não reconhecidos como cidadãos vivem atualmente, um caos. Bem, acho que essa copa foi a revolução de Zidane. De repente o atacante virou zagueiro e defendeu na cabeçada, a Liberté, Égalité, Fraternité. Em nome, não da pátria-mãe, mas da própria-mãe.

Na verdade nos últimos meses estive fazendo planos, revendo enganos, fazendo as malas e organizando a agenda de passaporte pra o exílio. Estava decidida a partir. Não por falta de amor ao país ou aos meus, mas por amor a mim mesma. Queria viajar, respirar outros ares, ver outros olhos e "desligar", temporariamente, apenas. Como a gente faz com a TV quando a programação é chata ou quando a "pelada" vai mal. Não tenciono deixar meu país. Eu estava apenas querendo tirar férias dele. Queria resgatar a sensação apaixonada, essa que sentimos ao ver nosso time defender nossa pátria numa final de copa do mundo ou de torcer pela eleição do nosso candidato escolhido, com confiança de que ele vai nos honrar. Sensações que eu não estava sentindo ultimamente e que a Copa só veio reforçar. Como não sou de esperar quatro anos pra sentir tesão... Decidi que iria pra casa me alimentar do amor materno, tomar uns banhos de rio, depois, quem sabe, atravessar o continente, em um tempo que meu amigo Sérgio Natureza batizaria de "passar uma chuva".

Porque é tanta "navalha na carne", "operação dominó","cerol" e "sanguessugas", que nos assiste, "impávidos-colosso", todo dia pela TV, que estava me sentindo sangrada, derrubada e literalmente, sugada. ..."dos filhos desse solo, és mãe gentil"... não fazia nenhum sentido.

Mas o jogo sempre pode virar, contrariando a torcida, o time e o treinador. Acho que foi Emily Paul quem disse: “Quando a gente pensa que sabe todas as respostas... Vem a vida e muda todas as perguntas...”. E foi isso que aconteceu!

Artur da Távola, numa reflexão sobre sí mesmo, diz que: "...Faz parte do espírito romântico, a idéia do heroísmo, da entrega a um ideal"... E eis que a oportunidade de ajudar uma amiga a fazer a parte dela na história, me trouxe de volta a sensação apaixonada de lutar por um ideal.

No futebol, nosso orgulho de "pentas", vai ter que esperar o próximo mundial. Porém na política, para que possamos não nos decepcionar mais uma vez daqui há quatro anos, temos que sair da torcida, entramos em campo e jogarmos limpo em outubro. Temos que escolher a "seleção" certa e principalmente o melhor "treinador" , se quisermos virar esse jogo!!!

Fui contamina pela ofegante epidemia. A da paixão!

* "ofegante epidemia, uma alegria fulgaz"...(da música VAI PASSAR, Chico Buarque)

Enjoy, M

28.7.06

Eu não tenho mais medo de Arraia!!!

Marfiza

Eu nasci no mar... onde existe um dos maiores rios que há, o Paraná. Os índios de lá, impressionados com sua grandiosidade o chamaram de mar... (paraná, na língua tupi). Porém as correntezas da pobreza me levaram pra muito longe de lá e pra onde eu fui levada, as águas reinam absolutas... foi lá que eu aprendi a ter fé.

Ainda menina, eu ia nadar escondida e eram muitos os perigos das águas escuras e profundas dos rios de lá, mas o que mais me aterrorizava eram os bichos, e de todos eles, as Arraias. Peixes-boi, Botos, Ratazanas, Peixes-elétricos, Cobras d-água, e as temidas Arraias. "... a dor de uma ferroada dura 24 horas..." (a voz da minha mãe sempre ecoava). Mas eu precisava da água, tinha fé, e me arriscava. Um dia a corrente me levou e no caminho uma ponte me salvou. Nunca mais me senti à vontade pra nadar por lá...

Qualquer nome que os índios de cá tenham dado aos tantos rios que existem na Amazônia, tinha sempre paraná (mar) no nome de tão grandes que são... Guaporé, Ique, Ji-Paraná, Madeira, Mamoré, Paraná-Pixuna, Roosevelt, Jamari, Jaru, Juruá... Não quiz mais nadar... e ainda tinha medo de Arraia e mais medo ainda de morrer e minha mãe não se perdoar... Mães são assim, não têm culpa de nada, nos alertam e orientam sempre, mas sempre se consomem.

Mas eu sou da água e não dava pra não me molhar, então adotei as chuvas, que lá na região amazônica são constantes, e na época delas, diárias e torrenciais. Foi quando veio outro vento, inda mais forte e me jogou nesse rio de cá, da selva rural pra urbana... e me puz a remar, sem linha de chegada, sem bandeirada, sem destino nem nada. Agora com as águas daqui tão turvas, sinto a corrente me empurrando a cruzar o continente e desejo que minha mãe que é tão sábia, saiba me orientar. Nestes dias em que não temos salva-vidas, torço pra que ela me diga pra ir fundo, ou simplesmente, não mergulhar. Tantas lágrimas da dor de tantas perdas, frustrações, saudades dos dias em que eu sonhava que as canções poderiam mudar o mundo...e mudam! Mas em velocidade tão menor, que não sei se escaparemos do dilúvio que se anuncia. São tantos os tsunamis e katrinas todo dia, que meu coração aflito, pede um pouco de calmaria. São tantos os ratos que ao invés de roupas, roem sonhos, pessoas a tomarem veneno em cubículos, copos de "pé-sujo", em mesas de bar, em esquinas, nos becos, nas vielas, anestesiando seus medos, suas frustrações, seus desejos, seus anseios. Meninos-boto, em seus poucos pêlos, vendendo sua juventude, seu destemor, seus sonhos, anseios, anestesiando seus medos, nos becos, nas vielas,... meninas-boto, inda nem têm seios... e feito cadelas, uivando, latindo, requebrando... nos bailes funk, nos bairros, nas favelas. E nesse zoológico urbano, desses bichos todos soltos, eu temo menos as arraias, os peixes-boi, as cobras d-água, pois do que eu sei, a única certeza é a de que a dor de dois dias não é maior que a de agora.

Agradeço a minha mãe que me ensinou a temer águas turvas, bichos que machucam, ratos que roem sonhos, gente que vira bicho e a manter a fé na vida. Ela nem sabe, mas com sua voz de soprano, me ensinou também a cantar. Mas eu ainda tenho medo, tenho medo da morte! Da morte da fé na vida, nas pessoas, na música boa. Minha fé... tão bem plantada, agora regada só de lágrimas.

Relutante em aceitar, busco na minha mente "duty free" de intérprete, a lembrança de uma canção entre tantas que me transportam pra outro lugar, porque somente a música, minha bússola-passaporte, que me transporte, me leve pra um lugar, uma ilha, um cais, um porto, onde eu possa o medo ancorar. E então repetir um refrão de acalanto, um mantra, um canto, pra o medo ninar...

"...Eu sei dos perigos do mar
Eu sei dos perigos de amar
Eu não tenho mais medo de arraia
Eu nao tenho medo de nadar
Eu não tenho medo de nada...
Eu não tenho medo de arraia
Eu não tenho medo de nadar
Eu não tenho medo de nada...
Eu sei dos perigos de amar
Eu sei dos perigos do mar."

Take Care, M.


*Foto do meu amigo Hélder (banda BR 80, Jeep Clube Porto Velho), trilha ao Terceiro Tombo do Rio Preto.