Que tempos são esses!
Lá de onde eu venho, o único risco de se transar dentro d'água é o de ser invadido por um Candirú. Aliás, falando nisso, creio que candirús são tão traiçoeiros quanto paparazzos. Êta bicho tinhoso! É um vampiro, alimenta-se de sangue alheio. Enfiando-se em qualquer orifício. Ouvido, boca, nariz, ânus, vagina, (principalmente de moças menstruadas) e pênis (uretra, pelo cheiro da urina e amônia). Se puxado, ele abre duas guelras que rasgam a pele e provocam um estrago tão grande que pode até levar a pessoa a morte. É muito perigoso e todo amazônico sabe disso!Mas tenho muito medo também do bicho que estamos nos tornando e do caminho que estamos trilhando, nesse trem descarrilhado chamado mundo virtual, ambiente de rede, onde ninguém se conhece mais, conectados que estamos, apenas por cabos. Quero conexões de mentes. Quero a magma nação!
Não desculpo nem minimizo a responsabilidade de cada um pela exposição em que se colocam. Mas acredito que pessoas são pessoas e por esse primordial motivo, deveriam ser, antes e acima de tudo, respeitadas e também orientadas desde cedo a se darem o respeito. Porque como seres humanos, estamos todos autorizados pela mãe natureza a certos deslizes. Temos que ter a opção de errar e acertar. Temos muitas vidas a viver nesse planeta e precisamos ter o direito à chance de rever posturas, posições, discursos e de melhorarmos.
As pessoas estão cada vez mais sendo conduzidas a essa mentalidade de impunidade no virtual, diante do que rola no mundo real, com a falência de importantes instituições, como a família, a igreja, o governo, tão corrompidas. Estamos todos conectados através de provedores de acesso que permitem o rastreamento de tudo. Isso é bom, propicia a investigação, porém, não garante punição dos sugadores do sangue alheio, assim como não é confiável a punição para os vampiros do mundo real.
Adoro as tantas possibilidades tecnológicas e a democracia da internet que nos proporcionou esse salto quântico na evolução, através do contato em tempo real com o mundo todo, dando igual espaço a qualquer mortal de se expressar, difundir obras importantes ou medíocres e principalmente salvar vidas. Mas ela criou também um monstro que é a total falta de controle sobre qualquer coisa. Não se tem mais controle sobre o direito da propriedade intelectual, da imagem, da voz, do corpo, do sexo sossegado dentro d'àgua.
Esse amor, essa veneração ao privado me incomoda. Acho privacidade fundamental, necessária. Não quero o babado, o fuxico e nada que não me acrescente. Quero que os homens consigam criar regras e leis que imponham respeito no mundo virtual. E aqui fora, resgatem os valores morais nos quais fomos educados por nossos pais e avós. Esse "todo poder" de sermos invisíveis, nos põe muitas vezes, confortavelmente na posição de algozes, de juízes, de donos-da-verdade, transformando algumas pessoas em verdadeiros monstros, pela falta de punição e regras. Rola muita maldade na rede!
Estamos caminhando no mundo virtual para o mesmo caos que estamos vivendo no mundo real. Já tive ingênuas tramelas nas portas e janelas. Ingenuas gavetas e baús e isso foi há tão pouco tempo... Agora invadem tudo, roubam tudo, copiam seus projetos, roubam seus poemas, expionam seu sexo, sugam sua alma.
Aqui fora precisamos de fechaduras, erguemos estranhos muros de concreto em torno das nossas casas, com câmeras, guardas e cães, temendo que possam invadí-la!
No mundo virtual temos firewell espalhados nas redes dos computadores e não estamos, nem de longe, livres da invasão diária.
Quero um tempo em que o mundo virtual seja um canal usado mais para o bem do que para o mal e quem sabe, ajude a salvar o mundo real.
Um tempo em que o link passado pelo meu amigo, eu possa acessar. No outro, eu possa confiar!
Quero comunidades que tenham organização e a seriedade para difundir através da rede, denúncias de crimes, educação, cultura e arte. E que promova mudanças de fato.
Quero ser tudo o que quero ser. Real e virtual. Varanda de casa e ambiente da rede. Ter amigos no portão e no portal.
Cruzarmos todos a mesma esquina, sem atropelamentos, posto que todos respeitem o sinal.
Porquê somos acima de tudo, racionais. E por traz de cada máquina, tem sempre um homem.
Ainda tenho fé na gente! Mas de Candirús... eu tenho medo!
Recomendo a leitura do texto "O que o vídeo com Daniela Cicarelli tem a nos dizer", de Gilberto A. Jr - webinsider.uol.com.br
