A ofegante Epidemia

Eu tento sempre reconhecer, mesmo quando me sinto "cheia de razão", que posso estar errada. E fazendo hoje uma retrospecção, lembrei-me que há alguns meses eu afirmei com veemência e descrença que este ano eu votaria nulo e torceria contra. Eu estava protestando contra nossos políticos e afirmando minha pouca fé na nossa tão amada-idolatrada-salve-salve-seleção brasileira. Não estava conseguindo me inspirar com essa "ofegante epidemia, essa alegria fulgaz", de Copa do Mundo. Mas dessa vez, me desdisse duplamente.
Na política, minha melhor amiga é candidata a Deputada Federal e eu, sua assessora de comunicação. A Edna Barbosa é idealista, apaixonada pelo que faz e tem, não só uma causa justa a defender, (pois vem jogando limpo em defesa dos empregos dos trabalhadores de bingos do país), mas também merece todo o meu empenho em apoiá-la considerando a nobreza da causa, e nossa história de longa amizade, plantada lá em Ji - Paraná há 18 anos. Aff! Estamos ficando velhas, amiga!
Já a copa... Apesar de adorar ver futebol, prefiro mesmo as histórias. E foi confortador pensar no AfroReggae, no Marcello, na Mariana, todos lá em Berlin, escrevendo um pedaço de uma história da qual eu também faço parte. Foi lindo ver a Alemanha passar a limpo uma história de tantas tristezas e separações, comemorando todos juntos, depois de tudo o que viveram. Impossível não se orgulhar com a fé do comandante Felipão e com a possiblidade de gritar gol em bom português. Impossível ignorar os dribles de Zidane. Eu torci pra que essa história tivesse um final feliz e lamentei muito, pensando nos motivos que o levaram a perder a cabeça. Quer dizer, não perdeu né? Acertou o italiano em cheio (tsc, tsc).
Zidanes, Maludas, Makuleles, nomes e caras que não deixam dúvidas. São todos filhos de uma terra cheia de conflitos, uma França multi-racial, que mais se parece brasileira de tão mestiça, onde os emigrantes, não reconhecidos como cidadãos vivem atualmente, um caos. Bem, acho que essa copa foi a revolução de Zidane. De repente o atacante virou zagueiro e defendeu na cabeçada, a Liberté, Égalité, Fraternité. Em nome, não da pátria-mãe, mas da própria-mãe.
Na verdade nos últimos meses estive fazendo planos, revendo enganos, fazendo as malas e organizando a agenda de passaporte pra o exílio. Estava decidida a partir. Não por falta de amor ao país ou aos meus, mas por amor a mim mesma. Queria viajar, respirar outros ares, ver outros olhos e "desligar", temporariamente, apenas. Como a gente faz com a TV quando a programação é chata ou quando a "pelada" vai mal. Não tenciono deixar meu país. Eu estava apenas querendo tirar férias dele. Queria resgatar a sensação apaixonada, essa que sentimos ao ver nosso time defender nossa pátria numa final de copa do mundo ou de torcer pela eleição do nosso candidato escolhido, com confiança de que ele vai nos honrar. Sensações que eu não estava sentindo ultimamente e que a Copa só veio reforçar. Como não sou de esperar quatro anos pra sentir tesão... Decidi que iria pra casa me alimentar do amor materno, tomar uns banhos de rio, depois, quem sabe, atravessar o continente, em um tempo que meu amigo Sérgio Natureza batizaria de "passar uma chuva".
Porque é tanta "navalha na carne", "operação dominó","cerol" e "sanguessugas", que nos assiste, "impávidos-colosso", todo dia pela TV, que estava me sentindo sangrada, derrubada e literalmente, sugada. ..."dos filhos desse solo, és mãe gentil"... não fazia nenhum sentido.
Mas o jogo sempre pode virar, contrariando a torcida, o time e o treinador. Acho que foi Emily Paul quem disse: “Quando a gente pensa que sabe todas as respostas... Vem a vida e muda todas as perguntas...”. E foi isso que aconteceu!
Artur da Távola, numa reflexão sobre sí mesmo, diz que: "...Faz parte do espírito romântico, a idéia do heroísmo, da entrega a um ideal"... E eis que a oportunidade de ajudar uma amiga a fazer a parte dela na história, me trouxe de volta a sensação apaixonada de lutar por um ideal.
No futebol, nosso orgulho de "pentas", vai ter que esperar o próximo mundial. Porém na política, para que possamos não nos decepcionar mais uma vez daqui há quatro anos, temos que sair da torcida, entramos em campo e jogarmos limpo em outubro. Temos que escolher a "seleção" certa e principalmente o melhor "treinador" , se quisermos virar esse jogo!!!
Fui contamina pela ofegante epidemia. A da paixão!
* "ofegante epidemia, uma alegria fulgaz"...(da música VAI PASSAR, Chico Buarque)


